sexta-feira, 28 de outubro de 2016

GIRO

A Terra vai girando sob meus pés

Sobre minha cabeça
Dentro de mim
Dentro de Deus
A Terra
Eu.

Dentro do corpo do mundo

Dentro do corpo de Deus
No ventre de tudo que respira
Centelha ínfima
Pedindo vez.

Onde estão teus olhos que não vê?

Onde estão teus ouvidos que não escutam?
Por que tuas mãos se cegaram para o braile do belo?

E a dança segue frenética e entorpecida...


Me nausea o mundo que muitos escolhem.

Como respeitar a escolha do outro em destruir-se?
Aniquilo-me.

És nada, Juliana, ficai com teus nadas.

Deixai que a verborragia do mundo se entenda.
Teu silêncio não pode fazer revolução.
Sereniza teu coração e recolha-te.

Paz. Brisa. Centelha. Vacuidade.


Transito.

Transitamos.


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Não há romantismo em Marte


Vivo num planeta em forma de olho
Mesmo à noite, as pálpebras nunca cerram
E a visão nunca é formada de dentro pra fora
Os círculos de imagem são viciados
Pupila sempre dilatando para os fenômenos de fora
Asteroides e estrelas sempre mais apelativos
Ininterrupta dança química!

Estas explosões e aderências são artificiais?
Sou eu artificial?
Tão efêmeros e inconstantes como tais fenômenos
É a natureza volátil de onde piso...
Como realizar-me Terra em ti , ígneo Marte?

A brasa, a lava, alarga... vazios, queima sonhos...
Do teu vermelho o meu passou longe...
Ser estrela no sistema errado
Montar de Vênus um cavalo alado
E fugir desta espiral!
Faísca de poeira será meu rastro
Via Láctea, tchau tchau! 

_______

Juliana Ponciri, 25-10-2016.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

PARIR-SE

Para onde caminha minha sensibilidade?
Serei eu os sonhos que desisti?
O amor dado agora terá de ser novamente guardado.
O planeta vai girando e eu sobre ele...
Tudo lento e cumprindo seu ritmo, seu destino, seu girar.
O relógio, o passo, a lágrima...
Até amor tem que ser remédio: dosado.
Grandes doses geram efeitos colaterais...
(...)
A medida certa...
Nunca fui boa matemática.
Minhas porções intuitivas,
Minha geometria enlouquecida e desforme...
Eu não me caibo no meu corpo
Meu corpo não cabe neste tempo
Este tempo não cabe nos espaços designados.
Eu: ser plasmado, dilatado, latejante...
Ímã querendo aderência
De sonhos, de alma, de paz...
Jorrando o amor anos contido...
Tem que abarcar a humanidade!
Se deixo escapar só por um furinho designado a alguém...
Sufoca!
Gás que vai intoxicando...
Há amores que não funcionam na dinâmica da proteção
E que pedem que eu usurpe minha natureza de coruja,
Há amores que me pedem águia:
Que eu empurre os filhotes ao despenhadeiro!
Mas vendo a fragilidade e despreparo dos filhotes
Falta coragem...
Sobra cuidado...
E então você espera sabiamente o momento adequado.
Com a pedagogia de um educador que ausculta resultados...
BUM!
Mas eis que surgem situações que te forçam ao desapego
E então você maturece cem anos em um dia
Abruptamente, na agressividade que forja novo ser
Ser de consciência e entendimento
E então a pele descamada do coração sente e sabe:
'Aqui precisará de fortes doses de desapego
Depene sua coruja para que no frio ela saiba
Que este amor pede descuidado.'
Que brutos partos a alma sofre!
Parir uma evolução a que não se está preparada!
E eis que a lágrima foi à semente regá-la
Vulcão erupindo-se
Rasgando tempo e revolucionando escalas
Parindo-se:  desabrochando-se maior de si
Árvore ebulida brotando e irrompendo com copa homérica
Instantânea de susto, vinda da semente da dor
Explodida para fora em vômito desesperado...
Parir-se.
Escorrer-se.
Alastrar-se.
Desastrar-se.
Algumas vidas custam a morte de outras.



Juliana Ponciri, 21/09/2016. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O gris do tempo
O amargo das horas
O fosco esbaçando os olhos..

As paisagens as mesmas:
Mil rostos e nenhuma centelha 
Tudo gente morta!

Cá estou eu também: 
Uma morta que pensa.

Por que caio em lugares de gente sem alma?
Período purgatório...
Quando é que a vida chega?
Ou quando cessa de vez...

Ar! Please.
Ar para meus pulmões cheio de lágrimas!
Luz para minhas células!

Vem, vida, sái do onírico.
Irrompa esta realidade!
Quero beijar-te a face rubra e cândida.

Saia. Entre. Seja ar!
Vida quente:
Me dance, me voe, me movimente!

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Meu corpo planta
Que o teu desejo implanta
Seiva saudosa da alegria!
Tu: saliva, néctar, sêmen...
Eu: gérmen, gemido, gêiser!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Agora eu entendi o significado da expressão "TEMPO FECHADO".

O frio e as nuvens fecham o tempo presente no passado.
As pessoas convivem mais com suas lembranças do que com os seres presentes.
O frio envelhece o tempo em nós.
Ou... nos revela velhos! kkk

Quando amanhecemos e levantamos num dia frio e vamos nos alongar e espreguiçar, nossas articulações soam como os rangidos da madeira de uma casa velha...


O frio ecoa nossa velhice.
O frio nos fecha.
Já reparou como os anciãos tem sempre um olhar distante?
Como se estivessem fechados numa dimensão que não alcançamos ainda...


Testes antigos revelavam que meu perfil psicológico era extrovertido, e eis que de uns 8 anos pra cá... Sou introvertida.
O tempo nos fecha.
Quando mais tempo acumulamos, mais fechados ficamos.
Como se o tempo vivido correspondesse a uma acumulado de caixas que vamos guardando e, por vezes, trancando... Um sótão, um porão de nós.
É preciso muito sol e juventude para romper estes sutis cadeados e correntes!


É, realmente faz frio.
Não lembro de, outrora, em minha juventude, ter-me queixado de frio...
E não acho que era porque - ainda que, considerando minha característica ectomorfa - eu tivesse alguma massa adiposa (risos)...
A juventude carrega o sol dentro.
E seus sorrisos são como os ipês amarelos num cerrado brasiliense velho, sem cor e retorcido!

(...)


Não, nuvens, vão embora! Dissipem-se!
Não ponham mais tempo no meu tempo!
Eu preciso do agora.

Nem os pássaros te cantam, óh tarde gris!
E este vento nas folhas instaura um tempo que não é AQUI.
Como uma saudade de sei-nem.
Puxando minh'alma a divagar com ela...
Devagar com ela! Com saudade não se brinca!


E por que será que chamo eu "saudade" este sentimento de tempo não-aqui?


ÓH, ABRA-SE, TEMPO!
Quero passar, quero respirar, quero ir!


Vou ali meditar pro meu tempo abrir! ^_^