segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Vasculhando fotos antigas, achei uma fotinha minha com 10 aninhos de idade.
De lá pra cá 23 anos se passaram.
(muitas reflexões)

O que cabe em 23 anos?
_ Não lembro se plantei árvores (ainda que defendido causas ambientalistas);
_ Não "tive" filhos (e abomino tal verbo, sobretudo relacionado a humanos);
_ Escrevi livros que não me encorajei em publicar (mesma coisa de não tê-los escrito);

Assisti minhas ideias e ideais sendo mudados.
Ontem eu recomendava um teste de Jung e lembrei que até a minha personalidade mudou.

E o resíduo de tudo o que supus - e suponho - que fui, só sinto significado nos "obrigados" que ouvi de algumas poucas bocas, ou mesmo OBRIGADOS calados em silêncios, olhares que sorriam.
Ahhhh sim, isso sim disse e diz ainda: "Mujer, si que estás viva!" Emoticon wink

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Foi tudo TÃO RÁPIDO e é notório quão se acelera cada dia mais!
Freneticamente.

O filme da vida de outrem cada vez me soa mais fictício...
E quão verdadeira é a sensação de que vou acordar a qualquer momento.

Exemplo:
Isso de TODAS as amigas da minha idade estarem parindo seus filhos...
É a coisa mais linda do mundo, é um marco que elas estão assinalando no tempo.
Mas para mim, causa-me dois sentimentos:
1) Estranheza e DESLOCAMENTO (sensação de não lugar/ não pertença);
2) PÂNICO! kkkkkkkk Qualquer coisa que ameace minha liberdade e autonomia me soa com um monstro de 7 cabeças! (E ISSO É MUITO SÉRIO)

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Hoje é o dia em que se celebra os mortos.
Pois bem, vim celebrar as mortes (minhas e alheias) sentidas, vividas, assistidas e APRENDIDAS no intervalo destes 23 anos.

Hoje de madrugada eu estava sozinha (e menstruada, logo: mais sensível) num apartamento gigantesco onde só se escutava o eco de minhas ações.

Experiência interessante.
Serena maturidade espiritual que te demarca algumas experiências.
Cito-as.
Você percebe que cresceu quando:
1°) Deixa de ter medo do ESCURO;
2°) Deixa de ter medo da SOLIDÃO;
3°) Deixa de ter medo da MORTE (dos que se foram, dos seus amados vivos, da sua);

Vulnerabilidade, na maioria das vezes, é uma sensação que alguma glândula no cérebro ativa no sentido de "DEFENDER" algo.
Depois de uma certa idade espiritual, você entende que NADA É SEU, nem a sua vida. 
Que tudo quanto é mais rico e certo no mundo, é igualmente frágil e etéreo.
E entende que toda forma virará "vazio." (budistas entenderão)
E então você nota seu DESAPEGO e sente PAZ, SUPREMA PAZ.

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Em resumo, neste dia em que se celebra os MORTOS,
Eu quero cantar e propor um BRINDE a eles, a nós.

Porque, acordem: MORTOS SOMOS TODOS.
Vida e morte andam de mãos dadas.

ESTAMOS TODOS A FAZER PASSAGENS
(olhe suas fotos antigas e isso berrará).

Portanto, não esperem que eu vá levar flores a caixões.
Os que AMEI e AMO não estão lá.

Eles seguem VIVOS aqui neste coração a pulsar, 
No SUPREMO AMOR que me ensinaram a viver e a dar.

Eles se foram, depois de me darem suas vidas,
E tenho responsabilidade em continuá-las.

Assim se faz há séculos.
Assim fez Deus comigo e com todos.
Somos um em muitos e muitos são em nós.

Eu já morri muitas vezes quando eu tive de permitir e aceitar que partissem (este verbo lembra algo que era parte) pessoas, momentos, lugares.
E cada vez que fui ficando menos, eu adotava outros mais.
E fui percebendo que a continuidade da vida é o AMOR.
O contrário da vida não é, pois, a morte, é a ausência de amor.

Só é seu o amor que você dá:
_ Você pode, dá "vida" a um filho,
Que será do mundo, de si mesmo (risos).
Mas só será "seu" através de algum elo amoroso.
_ Os livros que você "tem" só são seus, quando os sonhos, sentimentos, ideias e entendimento dos autores passam, por amor, a viver em você e serem os "seus".

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SOMOS MUITOS e ESTAMOS EM MORTE.

O relógio da vida é este tamborim. (tuts tuts tuts)
Sambemos enquanto há tempo, que tempo não existe mesmo! kkkkkk

Celebremos a morte das células que morrem em nós neste momento.
Celebremos a morte das ideias que tivemos.
Celebremos o beijo que demos e que não volta mais!
Celebremos a nossa saúde e nossa história que cisca, cisma e se renova!

Um brinde à morte de todXs nós!
Um brinde AGORA, para celebrar o que celebra sempre os ponteiros!

Brindemos as belas mortes,
Para que não esqueçamos o que é REALMENTE vida.

Juliana Ponciri, 02 de novembro de 2015.
Brasília - Brasil - Terra.

sábado, 14 de março de 2015

E ele não vem,
Ele não vem.

O sono não vem
O amor não vem
Não vem o sol.


Nada nunca chega
Tudo é partida
Num'alma partida.

O futuro não chega
(Ninguém chega sem ir)
O futuro é aqui
E eu já sabia.
Já aprendi.

Passado já não é de mim
Vivo n'outro tempo e lugar
E calo tudo que sei.

Os anos vão
Os anos vêm
E tudo silencia.
Maldita dor!
Maldita arritmia!

Vontade de voar...
Tamanha!
Que voo pra dentro de mim!

Não consigo viver desabitada.
Deus, Te encontro aqui.

Juliana Ponciri

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

DISTANTE

Para a amiga-irmã Alice Veloso


Tem hora que o coração fica inquieto
Quando ausculta a alma mui resignada
Sai fora do compasso, enlouquece
Quer botar vento em suas asas.

Dois corpos desentendidos
Dança desritmada
Meu ser no meio: sôfrego
Ofegando o nó da garganta...
Solfejar d'uma gaita desafinada.

A gente olha em volta
E vai somando as desimportâncias...
E no outro prato da balança: eco
Vento do que se foi deixando pra longe.

O meio disso é uma coluna erguida
Espinha ereta embrutecida
Mantendo firme o movimento
Regulando as desmedidas.

De quantos ontens se faz um agora?
No rosto daquela boneca-humana amiga
Que te acompanhavas no tempo em que sonhavas
E te vibra densa e forte no ainda?

Que olhar é esse que quer acordar dentro de ti
O que tu há tempos botaste para adormecer?
Que semblante mastro imponente é este
Que alegoriza tuas bandeiras?

Ariana: força, luta, presença.
Doçura cúmplice
Simplicidade em magistral consciência.

Te quero testemunha
Da minha desgraça ou da minha opulência.

Te quero olhos-mãos me apoiando
Sorrindo e me falando besteira.

Te quero irmã pretinha que o tempo levou
Sambando daí na mesma cadência.

Te quero porque dura pouco o flamor
Deste crime chamado existência.


Juliana Ponciri, Brasília - DF, Brasil.