domingo, 19 de setembro de 2010

Desaveçando o Abismo (errante vôo)

♫ "Nada sei desta vida. Sigo sem saber.
Sou errada, sou errante
Sempre na estrada, Sempre distante." ♪


Sou estrada.
E paralela a mim, caminho.
Onde hei de me encontrar?
Só mesmo mirando ao infinito eu me uno a mim.
Então peço de alma ao destino:
Infinita-me!

É tarde e volto de uma viagem que não fui.
Queria ouvir música.
Todavia este silêncio grita tão alto que...
Chega de estridências!
Já sou cega de tantas respostas...
Fecharei meus olhos e abrirei o ouvido interno...
Tão desafinada música me habita
Com essa melodia monótona e depressiva
e ao mesmo tempo gritante e desesperada.
Preciso harmonizar-me.
Silencio.

Vaguidão de não-lugar neste espaço mínimo cerrado
Dasabitação. Territórios de não-eu...
Deleeeeeeeeeuze me livre!!!
Latência rizomática que tenta uma forma
Inútil. Tão liqüefeita sou...
Cabe tanto verso nesta pausa que.
Vontade de. e de...
Calo.

Eu me tento e não me saio.
Contraditório. Silábico. Simbólico.
Imanóico. Emanóico. Paranóico.
Disforme. Distoante. Diabólico.
Diadórico. Con-fusão de Rosas
Veredas indecifráveis... vastas, ermas.

Nesta bucolia metanóica desconhecida
Sigo o passo sendo de não ser
Mas é preciso caminhar, quizás navegar
Voar? Ahhhh utopia desta apnéia apatia
Seria tão êxtase poder... e estar.
Em que ato se encontra minha transcendência?
Medito.

Vou me despetalando para tentar renascer maior
Meio girassol tonto de girar
Muita luz ante minh'escuridão!
Ofusco-me, nauseio-me, recuso-me...
Recluo-me.

Fato é que cansada estou deste caminhar sem rumo.
Mas os sapatos gastados pesam menos.
Saber ter me livrado de alguns fardos me sereniza.
Todavia me pergunto: gestaram ou gestarão flores meus frutos?
Primaveras de não veras
Quizás meus frutos foram inférteis
Valem frutos de um flor que se doa seca?
Colore as sementes gestadas sem beija-flor?
Ne sais pas. rien.
Mas eles riem sobre seus rios secos a jorrar
Correndo incansáveis para o além-mar...
Outononizo-me.

Loucura de anos em mim!
Voluptuosidades. Vida que se apressa.
Filme em convulsão
Imagens híbridas e epilépticas
Esqueléticas, irrizantes, esvázio-cheiantes
Múltiplas e coabitantes estações de pele
e de sangue.
Distorço-me.
Estou tonta de mim e meio zumbítica.
AAAAAAAAArrr! preciso regurgitar-me
Um pote de mundo por favor!
Deixa eu me jogar em qualquer abismo.
Cair no centro de mim...
Despenco-me.

Ouço o eco de minha queda que segue.
Passagens... Paisagens... Ausências...
Não sei quando chego e onde chego.
Infinitooooooooooooooo-me pra dentro de fora de mim...
Apenas sou-me. Imagine.

♫ "Imagine all the people
Living for today..." ♪


I'm NOT a dreamer.
And i'm NOT the only one.

Juliana Ponciri, 19 de setembro de 2010.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Chama

Dias de não-sendo... vou morrendo-me por dentro...
E eles vivem lá foras seus argumentos...

Cá dentro eu absorta em meus sentidos entorpecidos
Carregando esta ânsia de vômito nas veias:
Apressadas, apertadas, apartadas
Da volátil pero verdadeira vida que emana leite e mel
Este verbo-berro que vibra em meu sangue
Lateja uma ausência inexplicável
Meu ventre apela uma resposta
Como uma saudade do futuro que eu já tive
Tudo é náusea e vã filosofia
Porém, silenciar é morrer de pausa
Não consigo parar: de escrever, de pensar, de me ser.

À beira da loucura destes desacontecimentos
Sigo um cantar mudo e simulado e sufocado e desfalcado
Que escorrega nas notas fracas e nos tons desajustados
Não há harmonia, equilíbrio ou paz
A banalidade é monótona música de compassos viciados
- Mais do mesmo -

Mas é preciso soar
Qualquer dor latente... em tom menor que seja!
Engatinhando um verso qualquer
Carmim! Como flores! Carmim! Lírios!
Quero este verso! Quero cheirá-lo!
Dizer pro destino caminhando e caminhante: cá estou. Faça-se!

Nestes passos de desassossego
Vã esperança de desesperar o milagre
Já quero o simples
Qualquer singeleza notória que me arrebate
Que surja como a surpresa
Que eu sorria sem saber
Este riso interno que vem de não sei onde
Pelos olhos de não sei quem
Que emergirá não sei porquê
Sabedoria em não saber.

Eu sei que sinto o vazio
Este é o estágio interessante para se preencher
Vazio que cumpre a ordem dos dias
Livro macabro de paisagens mórbidas, áridas, secas
Deserticada estou, tudo é horizonte!
mas não me apavoro, sigo minha expansão até a linha inalcansável
onde eu me encontro
Nunca estou só
É ali na linha do caminho que eu me re-fugio
E que me re-gugito:
Tem horas que preciso me pôr pra fora
Porque o alimento dos dias comuns me embrulha
E quero e preciso ficar desnuda
crua, vaga, animalesca
Assim como a rua de um sonho
Paisagem onírica mutável e inovadora
Onde só toca e se aprofunda neste mistério pode participar
Onde etiquedas não podem entrar, nem serem penduradas.

É isso. Quero me pôr para fora em chamas
Como faz o Espírito Santo.
Ele sim poderia queimar-me em pensamentos
Destroçar qualquer lógica que é minha
e que reproduzo de outrem...
Reinaugurar-me!
Tornando-me gasosa e suave como o vento
Livre e voante
Que quando brincante, dançante, uiva como brisa da tarde
Ser uma ruiva uivante
Alada por dentro
Fóssil plasmado de mil séculos ancestrais! Abraão! Abraão!

Que falta pra tu vires Santo Espírito?
Vinde e faça-se.
Urgentifico-te. Vem!
Lança-te em meu corpo
Alçai em mim o teu vôo
Desintegra-me! Dilacera-me!
Como as árvores no cambio das estações
Trans-forma-me!
Cá estou rendida:
Seja-me-te voz!
Sussurra em mim o despertar da história
Salva-me! Salga-me! Salta-me!
Abismo quero ser
Caia-se pra dentro em mim!
Instaura a química que explodirá esta mesmice.
E fica. Comigo. Pulsante. Presente. Sempre.

Juliana Ponciri, 14 de setembro de 2010.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ode a Ceresia

Muitos chamam-me pedra.
Não. Sou rocha. E porosa.
Rocha viva dialogante. Cambiante.
Permissível ao fluxo dos elementos.
E deixo livre também a heresia
Para fazer nascer a ceresia
- Com bastante calda por favor! -

A ceresia é aquele cuidado especial
É aquele desejo mais substancial
É o retoque final do sorvete
Que está ali dizendo: Eu sou singular!
Então você vai se deliciando do sorvete até chegar a cereja
- Isso me lembra Tchecov -

É o desejo que a faz tão saborosa
Se você simplesmente a come
Ela não tem valor simbólico
Então melhor que mergulhes desastrosamente
em um pote de cerejas MUITAS!
E morrer de dor de barriga depois!

Mas eu tô falando da do sorvete
Do pecado que é ter este tipo de cereja para si
E da saudável delícia que é esperar comê-la
E então pegá-la, alcançá-la, retê-la como teu troféu
E intimamente você se resume à ser boca
E condensa todos os sentidos no paladar
É uma mistura de gula nostálgica e variante
que vai penetrando teu ser e
transpassando sentidos
E vai alimentando corpo alma e gozo
E escorrendo por entre dentes e línguas e salivas e estesias
Até você virar um todo sinestésico...

O mundo moderno precisa da ceresia,
senão tudo se reduz à mais-valia. ;)