quarta-feira, 31 de março de 2010

Atemporalidade BrasÍlha

Já sinto o cheiro-adeus do dia
A noite me toma desvairadamente
Intensifico-me tua
E quando me percebo já fui.

Natureza de sombra
Acho que sou meu próprio mistério
Vivo da noite tentando desvendar-me

Mas quem vendou meus olhos?
Quem velou minha vida?
Quero me re-velar de mim

De quantas eus se faz uma Juliana?
Outrora confiante me cria “a coisa em si”

Sou cheia de não-lugar
Como os brinquedos legos
Como a casinha da Barbie
Como 18hs nos varais dos ministérios

Sou Brasília em essência também:
Vasto plano desabitado
Espaço que estica o olhar pra dentro
Cheia de caixinhas onde se guarda nada
Empilhadas cerca uma das outras e tentando equilíbrio...

Meu passo é lento, suave e não forço o ritmo
Temo estremecer um a caírem as demais peças:
Dominó de saudades e vontades aquém

Eu ia no planetário para imaginar cosmos quando criança
E quando grande o meu susto:
Me enfiaram um planeta no meio da praça!

Isso às vezes me dá náuseas
Mexe com as dimensões dos meus sentidos
Agora tão mais expostos!

Acho que a arquitetura do meu cérebro deu um nós de mins
Sinto-me uma cartografia aberta pro infinito
Culpa de Niemeyer louco e universal

Todo brasiliense já nasce poeta
Porque nasce com o olho torto para dentro
O olho que alonga tudo: máxima extensão de fora
Ahí quando sozinho: máxima extensão de dentro

Tudo em Brasília é abismo
Fico abismada com a disposição organizada das coisas
É como se o tempo tivesse parado no relógio
Quero chacoalhaaar e bagunçaaaar!!!

E nas noites, tenho impressão que Marte ouve minha respiração
Também de noite tudo é organização, melhor, não-orgânicAção
Bonequinhos cumprindo tabela e batendo ponto
Todos dormem no mesmo horário na casinha do ken-ninguém
- Sim! Falo do Fernando (o Henrique)-
Desantenados das vírgulas necessárias à harmonia do texto...

E eu que caótica sou, me nauseio
Ainda bem que o céu nunca é o mesmo
Ele bagunça tudo por mim
Põe as coisas tudo fora de lugar

Ahí sinto que ele me devolve o ar...
Breath! Breath!
Regurgitofagia cardíOCO-pulmonar
Que me toma e me refaz.

¿E quando as nuvens me carregam para si
Fazendo-se minha extensão em forma de asas?
Ohhh me elevo e me divinizo...
É minha gota de movimento e de vida
Todo pôr-do-sol em Brasília é salva-vidas!

Da janela destas minhas 18hs
Vidas se aprontam para voltar
E a lua brinda nossas pseudo-vidas

Às margens deste espetáculo
Contemplamos na praia desta sinestésica nostalgia
A ilusão de que somos livres.

Juliana Ponciri